Translate

sábado, 8 de março de 2014

Perdida no outro lado

                                                                                                       
Não sei como vim parar nesse lugar só sei que a três dias atrás quando abri meus olhos eu estava quase me afogando em um lago com suas águas bem escuras e frias, mas o pior é que eu nunca estivera em algum lugar parecido, apesar da água ser muito fria eu consegui nadar rápido o suficiente para a margem, mas infelizmente eu não era a única que estava dentro do lago, os outros não conseguiram sair e acabaram morrendo afogados.
O capim era mais ou menos a minha altura, eu olhei ao meu redor e vi que aquele lugar era lindo e também assustador. No mesmo momento em que pensei isso uma mulher apareceu e disse:
   __Socorro! Por favor, ajude o meu menino!
Em geral eu diria para ela se acalmar e iria embora, mas assim que vi o menino a uns 70m senti algo que nunca havia sentido antes e foi muito mais forte que eu.
   __Eu vou buscá-lo!!
 Não entendi por que falei aquilo, apenas disse, mas ela também tinha duas pernas e boca, por que não o chamou? Mas mesmo se ela o chamasse eu ainda iria querer me aproximar do menino, era como se ele fosse parte de mim.
Corri atrás dele e o alcancei antes que entrasse na mata, foi um alivio! Pelo o que notei pareceu que meu sussurro atraiu algo do tipo místico como se tivesse despertado o vento! Pior é que o vento passou a soprar de modo tão sombrio e obscuro, as folhas secas começaram a voar em minha direção, coloquei as minhas mãos a mais ou menos um palmo de distância do meu rosto, e fechei os olhos por uns 3 segundos, mas quando os abri novamente percebi o quanto minhas mãos haviam mudado, pareciam de ser porcelana, eram totalmente perfeitas e claras. Fiquei assustada com isso e então sai correndo.
Acompanhei o menino até a casa dele, onde a mãe dele me agradeceu e me ofereceu obrigo.
Fiquei lá por uma noite, mas o tempo parecia não passar, e também eu nem estava cansada. Então eu comecei a observar as pessoas que estavam ao meu redor, percebi que elas tinham um olhar tão triste, agiam como se já estivessem cansadas de andar em busca do que queriam. Não me senti bem em ficar perto delas, como se eu acabace me entristecendo também, acabei decidindo, que iria pra minha casa,embora não fazia ideia nem uma de como chegaria até ela já que eu não sabia onde esta.
No dia seguinte sem falar com ninguém, sai seguindo por uma trilha, caminhei por horas até chegar a uma estrada de chão, que estava cercada de pés de pessegueiros muito bem floridos. Caminhei por mais algumas horas, quando avistei uma casa e pensei em pedir informações para quem estivesse lá. Havia um lindo jardim na frente e lá vivia um casal bem jovem e sem nenhum filho, mas eles pareciam felizes, apesar de morar praticamente no meio do nada. Eles me receberam com muito carinho, expliquei a eles minha situação e eles me olharam com um olhar triste e  disseram, que eu nunca iria voltar pra casa!
Assustei-me com isso e fui embora sem dizer adeus. Continuei a caminhar entre os pessegueiros e alguém disse:
 __Ei!
 __Quem?-disse eu.
 __você mesmo!
Um menino que estava atrás de uma das arvores, que também parecia estar perdido.
 __Você pode me ajudar? Eu to perdido, eu acho- disse ele com aflição.
            __Desculpe, mas não, pois estou tão perdida quanto você- disse eu com certa pena do menino que apresentava ter uns oito anos de idade.
            __Ah! Tudo bem, já estou acostumando a ouvir isso.
Ele se virou e saiu correndo entre as arvores. E eu continuei a caminhar, por muito tempo.
Eu estava me segurando, fazendo o possível e o impossível para manter a calma, mas teve um momento em que sustei! Fiquei dizendo que era tudo num sonho e eu precisava acordar,fiquei me debatendo,chorei por um bom tempo. Depois disso voltei à tona e fechei os olhos pedindo para que de algum modo eu conseguisse descobrir o porquê eu estou aqui, perdida!
Quando abri os olhos, havia voltado à estaca zero,pois estava próximo ao lago do inicio,Respirei fundo e fui até a margem para lavar o rosto, toquei na água com a mão em concha, de repente a água parou de se movimentar como se tivesse congelado, no reflexo pude ver meus pais juntos co0m muitos amigos  da família e também meus amigos da faculdade,pensei que fosse coisa da minha cabeça mas parecia que estavam em um cemitério, mas pensei logo! Quem faleceu? Olhei no epitáfio e lá dizia “Rayla Siqueira Laos 1978 à 1995-Falecida em um acidente de carro proposital,dia 05/09/1995”.Fiquei pasma pois era eu que havia morrido,aquele lago era um espelho,pra vida real,eu estava do outro lado. Só de pensar que aquele seria o meu fim!Fiquei sem nem um tipo de reação! Como se estivesse mesmo morta. O pior é que a culpa da minha morte era eu mesma.
Depois de ver toda aquela cena do meu próprio enterro!Acabei me trancando no medo e culpa, onde não havia nem um som sem ser o do meu choro!
Não sei por que fiz com que minha morte fosse proposital, só sei que agora sinto culpa por fazer tantas pessoas sofrerem, incluindo eu.
Acho que mereço ficar perdida do outro lado já que fui tão cruel, A única coisa que não entendo é por que não me lembro de ser uma suicida!
Assim que vi a cena no lago fiquei pensando em como era minha vida, passei a ver aquele mundo com outros olhos e notei que as pessoas não viviam, elas não agiam por conta própria, simplesmente imitavam umas as outras como em um espelho.
Depois de tudo fiquei me perguntando, será que ninguém percebe que estão vivendo um reflexo?Será que a realidade virou ilusão? Acho que sim, mas quem ira mudar isso. Penso que ninguém, pois se você vê no espelho que seu rosto esta sujo, o seu reflexo não vai limpá-lo.
Posso compara a vida das pessoas como um computador a vida das pessoas como um computador, uma maquina, mas sem manual de instruções! E mesmo que tivesse quem iria ler, pois ninguém lê manual. Se bem que se tivesse um manual pra mudar as pessoas eu leria, afinal já não me resta mais nada a fazer.
Pensar nos bons momentos que tive é uma boa distração! O problema é que não tive bons momentos eu programava tanto a minha vida, meus horários sempre eram tão lotados que nem me lembro do meu primeiro beijo, que acredito ser inesquecível na vida de todos.
Pensei e repensei as minhas idéias malucas de infância e senti algo diferente, algo muito forte e em meio tudo isso eu mergulhei com vontade no lago, como se soubesse exatamente o que estava fazendo, coisa que eu não sabia! A água era fria e escura como antes, a parte estranha e legal é que eu não precisava me preocupar com o oxigênio, mas em minha mente eu escutava um som com curtos intervalos de 2 a 3  segundos,  já havia escutado isso  antes, só não lembrava onde! E quanto mais fundo eu mergulha mais alto o som ficava PI... PI... PI... PI... Até pensei em voltar, pois estava com medo, mas não voltei, só continuei a nadar cada vez mais fundo! E o som me atordoando PI... PI... PI... Era como se aquele ruído me guiasse, me guiasse ao meu verdadeiro lugar! Teve um momento que me senti fraca pra continuar, mas não parei e PI... PI... PI... PI... PIIIIIIIIIII... o ruído prolongado foi um toque pra mim, pois lembrei onde já havia escutado os leves ruídos, era o Medidor de pulsação cardíaca! No mesmo momento pensei logo “Eu não estou morta?!” logo em seguida senti um choque e tudo ficou escuro e fechei os olhos com força, tudo se silenciou e abri os olhos lentamente e vi um homem de branco, poderia pensar que fosse Deus, mas ele não estaria  usando mascara e nem com um desfibrilador nas mãos.
                                                                                                                                                                   


                                                                                                                          Ellen Cristina Macedo 

Nenhum comentário:

Postar um comentário